Sobre_peso e leveza

Toda terça-feira nos reunimos numa sala em Perdizes. Somos em torno de 7 pessoas.

Ouço as narrativas com atenção. Neste ano que estou lá acho que sei basicamente os transcursos de todos. E não há um exagero em dizer que a vida de cada um poderia produzir um livro – são histórias marcantes.

Conheço o jeitão e, de formas diferentes, gosto verdadeiramente de cada um dos que estão lá. Poderíamos ter nos encontrado na escola, numa festa, sei lá… poderia ter sido em qualquer lugar. No entanto, o que nos uniu foi uma grande dor. Para alguns, essa dor chega a ser física e, para outros, é mais aquela voz que fica o tempo todo perguntando: por quê?

Cada um de nós sofreu agressões – em maior ou menor grau, vinda de estranhos e de pessoas amadas – por estar acima do peso. E estar acima do peso é estar fora dos padrões sociais de sucesso. Não, não é simplesmente dos padrões de beleza… o buraco é bem mais embaixo.

Você sabe: as pessoas perseguem uma ideia geral de sucesso e querem passar ao mundo a imagem de que estão sendo bem sucedidas. Como há uma pauta mais ou menos definida dos símbolos envolvidos nisso, no que se refere ao corpo é fácil saber quais biotipos evocam, mais que outros, uma imagem de adequação, potência, realização desse ideal. E, claro, nem por um sonho é o do gordo.  Por isso, de forma corriqueira, os gordos são rejeitados, tratados com desprezo ou até com uma certa desconfiança. E, na forma extrema, surge a agressão e a violência psicológica, mas ela é bem camuflada. Ao rejeitar o gordo, ninguém assumirá que o odeia por ele não ser o que se espera dele (ou se quer, ou se precisa) e, para atacá-lo, o agressor tenderá a optar por caminhos aparentemente mais aceitáveis: dizer que ele é preguiçoso, que é folgado, que é desleixado, ignorante, que não emagrece porque não quer… e muito mais. Quase sempre ele, o agedido, vai acreditar que é isso mesmo e talvez esse nó nunca mais se desfaça.

Não defendo que a obesidade não seja um caso de saúde pública ou que ela não precise ser tratada. Mas é preciso termos consciência de que as formas de abordagem do problema que estão aí não o resolveram adequadamente. Os profissionais de saúde tateiam a questão, as terapias e propostas de “reeducação” são superficiais e apenas reforçam a manutenção do padrão, voltando a dizer ao gordo: “o problema é seu”.

Mas não é bem assim. O problema é nosso. Em maior ou menos grau precisamos libertar nossos corpos o quanto possamos. Falar de obesidade é falar do corpo humano sobre o planeta terra, sobre nossas construções sociais, sobre nossa relação com a vida, sobre o que consideramos viver plenamente. Em resumo, se você acha que está em vantagem com relação ao seu gordinho, sorry… Talvez você pegue congestionamento todo dia e fique horas na frente do computador. Talvez seu tanquinho tenha sido obtido à base de movimentos repetitivos que te causavam desconforto e tédio e vontade de sair correndo para ir para casa e rolar no chão com seu filho. A prisão é uma só. Será que precisamos aceitá-la?

Por isso meu convite é para pensarmos tudo isso fora da caixa. Vamos nos aceitar e, juntos, conquistar um mundo cheio de oportunidades de alegria e realização para todos… seja lá como sejamos. 🙂

 

 

 

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2 thoughts on “Sobre_peso e leveza

  1. Uma reflexão permanente, Elaine! Convivemos neste século com os 05 males mais comuns da contemporaneidade: depressão, tristeza, pânico, bipolaridade e angustia. E ainda não sabemos como nos livrar destes estados emocionais. Só com o avanço das pesquisas, teremos soluções. Vejo que precisamos não cair na armadilha da desistência. Adorei seu blog. bjs

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